Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

“P. S. País Silenciado”

1.Recebi um mail de uma qualquer entidade que desconheço, a convidar-me para visitar um site identificado como ‘Sócrates 2009’. Como sei que o nosso Primeiro-Ministro jamais perderia tempo a editar um calendário tipo ‘Pirelli 2009’, que vale bem a pena ver, lá fui dar uma espreitadela para ver do que se tratava. Surpresa das surpresas: é uma espécie de programa eleitoral cheio de tentações e promessas no centro do qual está, claro, o nosso Primeiro e o seu projecto para o Portugal que quer dirigir durante mais quatro anos. Como também sei que os cidadãos não podem concorrer isolados a eleições legislativas, concluí que as iniciais PS, que a dado ponto aparecem no site, mais não querem dizer que “Partido Sócrates”. Ora ainda bem que o Partido Socialista finalmente assume assim perante a nação que, para além do engenheiro Sócrates, nada mais lhe resta: nem à esquerda, nem à direita, acima, abaixo, inclinado, ou vertical, ninguém mais existe para além daquele cujo nome encabeça o site. Quem votar PS nas legislativas, estará, apenas e somente, a votar em Sócrates.

Este imenso deserto em que se transformou o Partido Socialista ou é o fruto de uma enorme falta de ambição por parte daqueles que rodeiam o seu líder, ou, pior, a personalização, sem resistência, de um partido histórico transformado num grupo de homens e mulheres a tudo dispostos por um cargo, uma cadeira, um lugar na fotografia.

Sócrates, como Cavaco antes de si com o PSD, fulanizou o partido, tornando-o refém de uma vontade pessoal que só a si obedece. Esta estalinização dos aparelhos partidários não é nova em Portugal. Aconteceu com o estertor da monarquia e repetir-se-ia ao limite no Estado Novo com o partido único e a concentração absoluta de poderes no então Presidente do Conselho. Os portugueses não gostam de estabilidade, gostam é de estagnação. De alguém que lhes diga o que fazer, em quem votar, o que vestir, e, se possível, o que pensar. E, com as rédeas de uma comunicação social emudecida nas mãos, este Primeiro-Ministro, a quem reconheço méritos de persistência e trabalho, tem sabido gerir medos e silêncios, bem como desperdiçar opiniões e talentos, tornando o Partido Socialista e, em última análise, o país, num quarto vazio onde as paredes se aplaudem mutuamente. Nada de Humanidade. Apenas paredes incolores e inócuas, sem brechas nem arestas, sem rasgos ou vestígios de alma, portas ou entradas de luz, e por isso incapazes de sustentar um telhado ou inúteis para ladear um chão.

Somos um país em que os egos são mais importantes que a causa pública, onde ter uma opinião pode significar ir para o desemprego, onde ousar contestar o líder não é ainda o desterro mas pode já ser o isolamento, o desprezo, a solidão. Por isso esta ausência de vozes que façam ouvir alto o que, baixinho, sussurram pelos bastidores. Os que falam, fazem-no por sua conta e risco: ou porque não necessitam das esmolas do poder, ou porque, geralmente do alto da cátedra que são idade e experiência, não temem já represálias. Assim é com Medina Carreira, assim é com Helena Roseta ou Manuel Alegre, e poucos são mais os que se atrevem, dentro do aparelho, a colorir as paredes informes, os limites de um país pequeno que se tornou inexoravelmente pequenino.

 

2. A mim parece-me que 200 mil na rua a contestar políticas de educação, são um claro sinal de que há descontentamento. Ao Primeiro-Ministro mereceu apenas um comentário feito à pressa aos microfones da RTP, em serviço lá em Cabo-Verde: a velha teoria da manipulação da CGTP pelo PCP e BE. É uma chatice. PCP e, agora, Bloco, são o bode expiatório para esta algazarra toda. Sem eles, os professores e os funcionários públicos estariam comodamente em suas casas a assistir no sofá ao desafio de futebol, enquanto salários, reformas, estatutos ou emprego, eram discutidos como convém entre cavalheiros, à roda do chá no Tavares. O problema é que nem Carvalho da Silva é, felizmente, tão permeável, nem, infelizmente, PCP e BE tem, juntos, tal capacidade de mobilização. Se a tivessem, não haveria o risco de ‘Sócrates 2009’ vir a ter hipóteses de renovar uma segunda nefasta e perigosa maioria absoluta. É que até o PSD parece ter, através de Morais Sarmento, acordado da letargia a que foi votado desde que saiu do poder, concordando, imagine-se com o teor da manifestação. E com argumentos de peso, claramente expressos num recente debate na RR entre este ex-ministro e Vera Jardim. Já lá vão os tempos em que o mesmo PSD invocava a teoria das forças do bloqueio por tudo o que contradissesse políticas governamentais. Seja bem-vindo, Dr. Morais Sarmento. Faça-se mais e melhor oposição. Não chega o que o PSD faz na Assembleia. É preciso que saia à rua e se mostre.

A Socratização do país não é imparável. A Cavaquização também não foi. Indago-me se haverá, quer na substância, quer na arrogância, alguma diferença entre as duas. Apenas umas mudanças de nomes aqui e ali, mas uma grande similitude nas máquinas que espraiam as suas peças prontas a expulsar corpos avulsos.

Gostava de acreditar mais na capacidade do meu país em perceber quando lhe mentem e o manipulam. Mas temo que esta seja a sina: fazer poucas ondas para não acordar o gigante, pensar baixinho para não perturbar os grandes-líderes enquanto preparam o missal. Alto, Altar, Altivo, Luso, Lusitano, Viva-Sócrates. Para bom entendedor, uma palavra basta.

 

Pedro Abrunhosa

 

Porto, 17 de Março de 2009.

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:24
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